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Queimadas no Amazonas em 2026: aumento dos focos, fumaça e impactos para a saúde e a biodiversidade

 

Imagem gerada por Inteligencia Artificial (IA)

· Autor: Jonathan Teixeira (Biólogo)

O Amazonas enfrenta uma nova escalada de focos de calor e episódios de fumaça em outubro de 2026. O cenário mobilizou equipes de combate a incêndios, órgãos ambientais e autoridades de saúde, enquanto a qualidade do ar se deteriorou em Manaus e em municípios do interior.

Dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), compilados pelo Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), mostram que o estado acumulou 8.084 focos de calor entre 1º de janeiro e 15 de outubro de 2026. No mesmo período de 2025, foram registrados 3.674 focos, um aumento de aproximadamente 120%.

O crescimento exige atenção, mas os números precisam ser interpretados em contexto. Até 12 de outubro, o total de focos de calor no Amazonas estava cerca de 12% abaixo da média histórica desde 1998 e 67% abaixo do registrado no mesmo período de 2024, ano marcado por uma grave crise de incêndios e seca na região.

A situação recente, portanto, não permite afirmar que 2026 seja o pior ano da série histórica. O sinal de alerta está no aumento das detecções em outubro, na persistência da fumaça e na necessidade de conter os incêndios antes que provoquem danos ainda maiores.

O que os números do INPE mostram?

O Programa Queimadas do INPE utiliza dados de satélites para monitorar a ocorrência de focos de calor no Brasil. Para comparações históricas, é importante utilizar o mesmo satélite de referência, o AQUA_M-T, e períodos equivalentes.

Entre 1º de janeiro e 15 de outubro de 2026, o Amazonas acumulou 8.084 focos, contra 3.674 no mesmo intervalo de 2025. A diferença corresponde a um aumento aproximado de 120%.

O comportamento observado em outubro ajuda a explicar a preocupação das autoridades. Segundo a Agência Brasil, 540 focos foram registrados em 10 e 11 de outubro, mais da metade dos 874 registrados durante todo o mês de outubro de 2025.

É importante distinguir focos de calor de incêndios individuais. Um foco é uma detecção de fogo em um elemento da imagem de satélite. Um incêndio extenso pode gerar diversas detecções, enquanto diferentes queimadas podem aparecer dentro de um mesmo pixel. Alguns eventos também podem não ser detectados.

Por isso, o número de focos não equivale diretamente à quantidade de incêndios ativos nem à área total queimada. Para compreender a dimensão dos danos, é necessário combinar o monitoramento de satélites com estimativas de área queimada, informações de campo e investigações ambientais.

Os dados também precisam ser comparados com o histórico. O aumento em relação a 2025 é expressivo, mas a base de comparação foi relativamente baixa. Em 2024, o Amazonas havia registrado 23.475 focos até 12 de outubro, segundo a análise publicada pela Folha de S.Paulo com base nos dados do INPE.

Por que os incêndios estão acontecendo?

Os incêndios florestais podem ter diferentes origens, incluindo queimadas para limpeza de terrenos, manejo de pastagens, propagação acidental do fogo e uso intencional para alterar a cobertura vegetal.

Em outubro de 2026, autoridades ambientais também levantaram suspeitas de incêndios criminosos no Amazonas. Após sobrevoar áreas atingidas, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, relatou ter observado focos de fogo no interior de áreas de floresta preservada.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, essas observações levantaram a possibilidade de uso intencional do fogo para degradar a vegetação e favorecer o desmatamento posterior. As circunstâncias e a identificação dos responsáveis, entretanto, dependem de investigação pelos órgãos competentes.

A Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as instituições estaduais de segurança participam das ações de fiscalização e investigação. A existência dessas apurações não significa que todos os focos detectados tenham origem criminosa ou que os responsáveis já tenham sido identificados em todos os casos.

Além das causas humanas, as condições ambientais influenciam a propagação das chamas. A estiagem, o calor e a baixa umidade podem deixar a vegetação mais suscetível ao fogo, prolongar os incêndios e dificultar o trabalho das equipes de combate.

Qual é a influência do El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Ele altera padrões de circulação atmosférica e pode modificar a distribuição das chuvas em diferentes regiões.

Em 30 de setembro de 2026, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), em conjunto com o INPE e outras cinco instituições federais, divulgou o quarto boletim do Painel El Niño 2026–2027. O documento indicou uma probabilidade de 95% de que o fenômeno atingisse intensidade muito forte no trimestre de outubro a dezembro.

O fenômeno pode contribuir para condições de seca e calor em determinadas áreas, aumentando a facilidade de propagação do fogo. Isso não significa, porém, que o El Niño seja responsável por iniciar todos os incêndios.

É necessário distinguir os fatores que tornam a vegetação mais inflamável daqueles que efetivamente dão início às chamas. O uso humano do fogo, a ocupação do território, a fiscalização e as condições locais também influenciam a ocorrência e a dimensão dos incêndios.

Manaus e o interior enfrentam fumaça intensa

A fumaça das queimadas pode percorrer grandes distâncias, dependendo dos ventos e das condições atmosféricas. No Amazonas, o episódio de outubro afetou Manaus e diferentes municípios do interior, com registros elevados de material particulado fino em estações de monitoramento.

Em boletim publicado em 17 de outubro, o MPC-AM reproduziu dados da plataforma SELVA, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Às 9h26 daquele dia, duas estações de Manaus registravam concentrações de PM2,5 de 514,8 e 486,5 microgramas por metro cúbico, classificadas como péssimas pela plataforma.

Esses valores correspondem a estações específicas e a horários determinados, não a uma média de toda a cidade. A plataforma utiliza sensores de baixo custo, cujas leituras podem apresentar diferenças de desempenho e manutenção. Por isso, os dados devem ser interpretados conforme a metodologia e as limitações de cada equipamento.

O episódio também afetou as operações de combate ao fogo. Segundo informações divulgadas pelo Ibama e reproduzidas pela imprensa, a fumaça impediu a decolagem de aeronaves utilizadas nas operações em Manaus em 17 de outubro.

A combinação de incêndios, fumaça persistente e dificuldades operacionais torna o combate mais complexo. Mesmo quando o número diário de focos diminui, isso não significa necessariamente que todos os incêndios tenham sido controlados ou que a qualidade do ar tenha voltado ao normal.

Como as queimadas afetam a biodiversidade?

A Amazônia abriga uma enorme diversidade de espécies e desempenha funções ecológicas fundamentais, como o armazenamento de carbono, a regulação do ciclo da água e a manutenção de habitats naturais.

Quando o fogo atinge a floresta, animais podem morrer, sofrer ferimentos ou perder abrigo e fontes de alimento. Plantas e organismos do solo também podem ser afetados, com consequências para a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e a regeneração da vegetação.


Os impactos variam conforme a intensidade do fogo, a duração do incêndio, o tipo de vegetação e a frequência com que uma área é atingida. Florestas submetidas a incêndios repetidos podem apresentar maior degradação e dificuldades de recuperação.

A perda de cobertura vegetal também pode alterar as relações ecológicas entre espécies, incluindo a polinização e a dispersão de sementes. Esses processos são essenciais para a regeneração das florestas.

Além dos danos imediatos, incêndios e desmatamento podem modificar as condições de vida de populações humanas que dependem diretamente dos recursos naturais, incluindo comunidades tradicionais e povos indígenas.

A fumaça das queimadas pode prejudicar a saúde?

Sim. A fumaça contém uma mistura de gases e partículas que podem irritar os olhos e as vias respiratórias. Um dos componentes mais preocupantes é o material particulado fino, conhecido como PM2,5, formado por partículas com diâmetro igual ou inferior a 2,5 micrômetros.

Por serem muito pequenas, essas partículas podem penetrar profundamente nos pulmões. A exposição à fumaça de incêndios florestais está associada ao agravamento de problemas respiratórios e cardiovasculares, embora os efeitos dependam da concentração dos poluentes, do tempo de exposição e das condições individuais de saúde.

Entre os sintomas possíveis estão tosse, irritação nos olhos, desconforto respiratório e piora de doenças preexistentes. A exposição intensa também pode afetar pessoas sem diagnóstico prévio de doença respiratória.

Crianças menores de cinco anos, idosos, gestantes e pessoas com doenças cardíacas, respiratórias ou imunológicas merecem atenção especial. Isso não significa que outros grupos estejam livres de risco, principalmente quando a poluição permanece elevada por períodos prolongados.

O que a população pode fazer para reduzir a exposição?

O Ministério da Saúde orienta evitar atividades físicas ao ar livre durante episódios de fumaça intensa e permanecer, sempre que possível, em ambientes internos protegidos da poluição.

Entre as medidas de proteção recomendadas estão:

  • Reduzir a exposição ao ar livre durante períodos de fumaça intensa.

  • Manter portas e janelas fechadas quando a fumaça estiver elevada, considerando também a necessidade de conforto térmico e segurança.

  • Utilizar ambientes com filtragem adequada do ar, quando disponíveis.

  • Se for necessário sair, considerar o uso de máscaras bem ajustadas do tipo PFF2, N95 ou P100, que podem reduzir a inalação de partículas.

  • Buscar atendimento de saúde se houver sintomas intensos ou agravamento de doenças preexistentes.

Essas máscaras não eliminam todos os gases presentes na fumaça e não substituem outras medidas de proteção. Pessoas com doenças crônicas devem seguir as orientações dos profissionais responsáveis por seu acompanhamento.

O que a pesquisa científica revela sobre os impactos na saúde?

Uma revisão de escopo publicada em 2026 na revista científica Acta Amazonica analisou estudos sobre os efeitos do desmatamento e das queimadas na saúde humana na Amazônia.

O trabalho reuniu 108 estudos e identificou 41 desfechos de saúde distintos. A malária foi o desfecho mais investigado, aparecendo em 43,5% dos estudos incluídos. Os autores também encontraram associações entre a queima de biomassa e doenças respiratórias e cardiovasculares.

É importante interpretar esses resultados corretamente. A malária foi especialmente estudada em relação às mudanças na cobertura florestal e no uso do solo. Isso não significa que a fumaça das queimadas, isoladamente, seja responsável pelo aumento de casos da doença.

A revisão também identificou lacunas no conhecimento disponível, o que reforça a necessidade de pesquisas que integrem dados ambientais, epidemiológicos e sociais.

A saúde humana e a conservação da floresta estão conectadas, mas os mecanismos variam. A fumaça pode afetar diretamente o sistema respiratório, enquanto mudanças no uso da terra podem alterar as condições ecológicas associadas a doenças transmitidas por vetores, como a malária.

Como o poder público está respondendo à crise?

Em 10 de outubro, o governo federal reconheceu a situação de emergência decretada pelo Amazonas em 36 municípios. A medida abriu caminho para a liberação de recursos federais destinados às ações de enfrentamento da crise.

Em 17 de outubro, o governo federal anunciou o reforço das operações de combate aos incêndios com cinco aeronaves adicionais, elevando de 11 para 16 o total disponibilizado para as operações no estado. Também foram anunciadas medidas envolvendo as Forças Armadas, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, desde o início das operações federais, em 9 de outubro, haviam sido lançados cerca de 600 mil litros de água em aproximadamente 260 horas de voo. O Ibama contabilizava 317 incêndios extintos desde o início da temporada.

Na área da saúde, o Ministério da Saúde informou que monitora os impactos das queimadas sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) em conjunto com o estado e os municípios. O trabalho inclui visitas técnicas, acompanhamento da disponibilidade de insumos e apoio à organização dos serviços.

A pasta também anunciou a mobilização da Força Nacional do SUS para apoiar a resposta sanitária no Amazonas.

Essas ações são relevantes para enfrentar a emergência, mas a prevenção continua fundamental. Monitoramento ambiental, fiscalização, investigação das causas dos incêndios, orientação sobre o uso do fogo e recuperação de áreas degradadas fazem parte de uma resposta de longo prazo.

O que a ciência diz e quais são os limites

As evidências científicas sustentam que os incêndios florestais podem degradar ecossistemas e que a exposição à fumaça representa um risco à saúde. Também está bem estabelecido que condições de seca, calor e baixa umidade podem favorecer a propagação das chamas.

No caso do Amazonas em 2026, os dados do INPE confirmam um aumento dos focos de calor em comparação com 2025. Entretanto, o contexto histórico mostra que o acumulado até 12 de outubro ainda estava abaixo da média histórica e bem abaixo do observado no mesmo período de 2024.

Os números de satélite são ferramentas importantes para acompanhar a atividade do fogo, mas não informam, isoladamente, a área total queimada, a quantidade de incêndios individuais ou a extensão dos danos à biodiversidade.

Da mesma forma, as suspeitas de incêndios criminosos devem ser distinguidas de conclusões definitivas sobre a autoria. A investigação dos casos cabe às autoridades competentes.

Na área da saúde, a associação entre fumaça e problemas respiratórios e cardiovasculares é sustentada por estudos científicos. Já a quantificação dos efeitos de um episódio específico depende de dados locais de exposição, atendimentos de saúde e acompanhamento epidemiológico.

Conclusão

As queimadas no Amazonas em outubro de 2026 representam um desafio ambiental e sanitário que exige atenção, mas sua dimensão deve ser compreendida com base em dados comparáveis e atualizados.

O aumento dos focos de calor em relação a 2025, a fumaça intensa e as dificuldades enfrentadas pelas equipes de combate mostram a importância de reforçar a prevenção e a resposta à emergência. Ao mesmo tempo, o contexto histórico impede afirmar que o estado esteja vivendo, necessariamente, seu pior ano de incêndios.

A crise evidencia a conexão entre uso do solo, condições climáticas, conservação da biodiversidade e saúde pública. Combater os incêndios, investigar suas causas, proteger a população da fumaça e recuperar áreas degradadas são medidas essenciais para reduzir os danos à floresta e às pessoas que vivem na região.

Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um profissional de saúde.

Referências

  1. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Programa Queimadas — monitoramento de focos de calor. Disponível em: https://data.inpe.br/queimadas/situacao_atual/

  2. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Monitoramento de focos de queimadas em imagens de satélites. Disponível em: https://www.gov.br/ibama/pt-br/servicos/consultas/incendios-florestais/monitoramento-de-focos-de-queimadas-em-imagens-de-satelites

  3. Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM). Boletim de 16 de outubro — Risco atmosférico e hidrológico no Amazonas. 2026. Disponível em: https://mpc.am.gov.br/2026/10/boletim-de-16-de-outubro-risco-atmosferico-e-hidrologico-no-amazonas/

  4. Agência Brasil. Amazonas tem 540 focos de incêndio nas últimas 48 horas. 12 de outubro de 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-10/amazonas-tem-540-focos-de-incendio-nas-ultimas-48-horas

  5. Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Painel El Niño: boletim de setembro é divulgado. 30 de setembro de 2026. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br/noticias/el-ni%C3%B1o

  6. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Governo Federal amplia combate aos incêndios no Amazonas com reforço de aeronaves, forças de segurança e apoio militar. 17 de outubro de 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias-defeso-eleitoral/governo-federal-amplia-combate-aos-incendios-no-amazonas-com-reforco-de-aeronaves-forcas-de-seguranca-e-apoio-militar/

  7. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. Governo Federal acelera socorro aos incêndios florestais no Amazonas. 10 de outubro de 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mdr/pt-br/noticias-midr/governo-federal-acelera-socorro-aos-incendios-florestais-no-amazonas/

  8. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde, em conjunto com o estado e os municípios, monitora a assistência em saúde à população no Amazonas. Outubro de 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-ms/2026/outubro/ministerio-da-saude-em-conjunto-com-o-estado-e-os-municipios-monitora-a-assistencia-em-saude-a-populacao-no-amazonas

  9. Ministério da Saúde. Queimadas: orientações para reduzir a exposição à fumaça e proteger a saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/q/queimadas/queimadas

  10. Novaes, P. C. et al. Health consequences of deforestation and wildfires in the Amazon: a scoping review. Acta Amazonica, volume 56, 2026. Disponível em: https://www.scielo.br/j/aa/a/cmKFxHzmWfTSG8hc4QzNHYf/?lang=pt

  11. Folha de S.Paulo. Incêndios florestais dobram no Amazonas em 2026, mas índice está abaixo da média histórica. Outubro de 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/10/incendios-florestais-dobram-no-amazonas-em-2026-mas-indice-esta-abaixo-da-media-historica.shtml

Autor: Jonathan Teixeira

Conteúdo produzido com auxílio de inteligência artificial (IA).

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